27/04/2017

Os Lobos

De Alexandre Storch
(Ou Entre Lobos Bípedes, porque acho que gostei mais desse segundo título.)
Cresci rodeada pelo clima que leva a narrativa da segunda guerra mundial, porque meu opa (''vô'' em alemão, pra quem não sabe...coisa que compõe 90% das pessoas fora da Alemanha, creio eu; ''vó'' é ''oma'', para uma referência futura) lutou nela, tendo sido um jovem alemão naturalmente (e azaradamente, por que não?) recrutado pelo exército nesse período. O opa e a oma foram criaturas tão fantásticas e tão importantes na minha formação como pessoa que eles certamente merecem um post (uma série de posts, melhor dizendo) solo sobre eles e nada além deles, mas nesse aqui vou me restringir ao que toca esse livro. Opa, um cara fantástico (mas eu já disse isso, não?), super altruísta, gentil, carinhoso e gente fina que, já um senhorzinho, sustentou financeiramente trezentas crianças semi órfãs junto com minha oma e tornou a vida de muita gente mais fácil de se viver com uma quantidade enorme de doações que eles faziam constantemente; minha mãe está entre as crianças que só conseguiram ter algo parecido com um lar graças a eles. Não preciso dizer que, na guerra (e fora dela), ele não se enquadrou na parcela de criaturas malévolas do exército hitlerista que não hesitava em chacinar grupos enormes de pessoas e mandar tantos judeus pras câmaras de gás em virtude de um ideal de raça ariana doentio. Na verdade, tendo nascido no país em que nasceu, a despeito de seus posicionamentos avessos à força hitlerista, ele dizia que sempre tinha que se apresentar às pessoas pela primeira vez com uma frase do tipo ''meu nome é Ditmar e sou alemão, mas não nazista'', porque, para o mundo, pode-se entender quão difícil passou a ser dissociar uma coisa da outra, especialmente no meio daquele contexto.
Mas enfim, pra não divagar muito (tarde demais), vou concluir esses parágrafos dizendo que o assunto segunda guerra mundial sempre foi de meu interesse, desde pequena, porque uma pessoa querida e de importância ímpar para mim viveu esse momento memorável e dramático da humanidade, e desde minha infância trazia narrativas a respeito, quando estava comigo e com meus irmãos. Então desde sempre eu pego tudo que é tipo de material (livros, filmes, documentários, reportagens etc) sobre nazismo/II Guerra que consigo encontrar. É um assunto que sempre chama a minha atenção e que sempre consegue me fazer parar pra ver direitinho sobre o que é esse livro/filme que tô vendo nessa estante aqui... Não foi diferente com esse livro, Os Lobos. Apesar de já estar com uma montanha quase literal de livros nos braços quando o encontrei entre certas estantes por aí (as dos livros que roubei e tal, mas abafa), tive que abrir um espacinho a mais para ele. E que bom que eu fiz isso.
Sim, eu tava comendo sucrilhos. Me julgue.
Conhecemos, em primeira pessoa, a história de Storch, judeu sobrevivente da II Guerra que adotou esse nome pra fugir da delação mortal que seu nome ''verdadeiro'' provocaria, ao denunciar sua nacionalidade judia. Storch passou todo o período turbulento (nossa, isso é um baita eufemismo aqui, mas ok) do confronto indo de um lado a outro, se envolvendo com autoridades, grupos e pessoas diferentes para sair vivo da guerra. Vai de comerciante a líder político de pequena instância, combatente ativo da URSS, líder de pelotão, hóspede militante de um alemão da pá virada que comandava missões pequenas de sabotagem aos hitleristas e uma infinidade de outras nomenclaturas que eu poderia adicionar aqui. Basicamente, o cara rodou MUITO pra ir, aos poucos, sobrevivendo à guerra. Rodou tanto que seria quase humanamente impossível eu mencionar aqui todas as posições em que ele esteve, porque não li o livro anotando num caderninho cada referência.
Sendo uma criatura extremamente versátil (coisa extremamente necessária num conflito como esses, esse livro nos mostra), a capacidade de se moldar a situações diversas garante a Storch uma narrativa diferenciada da guerra, partindo de alguém que pôde observá-la através de diversos ângulos.
Vemos desde a apreensão inicial dos judeus e outros civis que não sabiam o que esperar do conflito ao drama de um homem que, por ser figura importante na cidade (e, como consequência natural, alguém que precisava ser afugentado primeiro), acaba preso e torturado até ter a chance de fugir de maneira completamente improvisada pra longe da família e amigos. Vemos alguém que, de maneira independente, começa a promover ‘’boicotes’’ ao exército daqueles que mandaram sua família aos campos de concentração, condenando-a a uma morte em anonimato e silêncio, e que posteriormente se alia aos combatentes opositores de seu adversário principal: o ideal hitlerista.
O livro, naturalmente, não se limita aos dois lados opostos popularmente conhecidos, judeus e nazistas, e mostra que muitas outras pessoas (grupos) fizeram parte dessa matança bagunça. Por estarmos na pele (através da narrativa em primeira pessoa) de um judeu diretamente inserido naquele contexto, vemos que o antissemitismo estava impregnado muito além do sangue ariano, e foi uma coisa que se desenvolveu gradativamente, alcançando diversas partes do globo. Vemos Storch sendo antagonizado por um racismo que dói na pele de quem lê, e esse tipo de postura definitivamente não parte só dos alemães. Não mesmo.
Isso era triste de ler, ver a facilidade com que seres humanos eram reduzidos a pedaços de carne que não valem nada só porque nasceram com esses ou aqueles genes. São os lobos que aparecem no título que o autor escolheu. São os lobos bípedes e carnívoros entre os quais ele viveu.
Comecei o livro com um trecho lindo que cobre as primeiras páginas, e não pude deixar de conjecturar sobre os motivos que o levaram a ter uma ‘’fama’’ ridiculamente menor que Anne Frank e seu diário, por exemplo. Os Lobos realmente não é um livro popular, foi difícil achar links a ele em vários sites bibliotecários que visitei, quase me levando a configurá-lo como um livro raro de se ter em mãos. Por quê?  
Ele é muitíssimo denso, esse deve ser o principal fator aqui. Não é um livro fácil, de uma sentada só, porque envolve conhecimento político, histórico, hierárquico, além de uma leitura cercada por várias nomenclaturas e nomes difíceis. Foi confuso e demorado ler, em vários momentos, e a leitura era dificultada por essa complexidade. Não é nenhum Tolstoy mas também não é uma adolescente escrevendo em seu diário, por mais sábia que ela seja (amo você, Anne). Definitivamente não se pode indicar esse livro a alunos da sexta série, enquanto O Diário de Anne Frank pode ser lido sem complicações até mesmo antes disso. Digamos que não é uma leitura acessível a todos, simplesmente...
Apesar disso, está recomendadíssimo pra quem se interessa pelo assunto. E, bom, acho que todos sabemos que livro ''fácil'' não é sinônimo de livro bom.
Vou terminar essa resenha falando de uma coisa interessante a que só esse livro me atentou. Foi a respeito dos sentimentos que precederam o início da guerra. Storch era uma figura marcante na cidade, quase uma autoridade, então sabia que seria um dos primeiros a serem condenados e, por isso, pôde tomar precauções que outras pessoas não viram como necessárias a si mesmas. E por isso sucumbiram. Diversas vezes vemos ele chegando a amigos, conhecidos e família no livro aconselhando-os a fugir, sair da cidade, sumir do mapa, porque os nazistas estavam chegando. E eles não faziam isso porque supostamente não tinham o que temer. Não eram autoridades políticas, não faziam parte de um exército opositor, não representavam nenhuma ameaça. Não faria sentido eles serem mortos, porque não cometeram nenhum crime. Mas para aquelas mentes doentias, era crime ser judeu, e por isso todas essas pessoas foram condenadas. Morreram porque não conseguiram dimensionar a barbaridade que se acometeria sobre eles, morreram porque seus corações não conseguiram enxergar motivo para alguma crueldade. Morreram por serem inocentes.
Foi triste ler trechos em que ele chegava para pais e dizia ‘’escondam seus filhos, tirem eles da cidade, mandem eles para longe, salvem suas crianças’’ e esses pais não davam credibilidade a essas admoestações, já que por que alguém iria querer matar crianças inocentes, que não fizeram nada e não prejudicam ninguém? Por que fazer algo assim?
Morreram. Porque a loucura humana é motivo suficiente e nada mais.

''NENHUM DE NÓS, SOBREVIVENTES DAQUELE MARTÍRIO, GOSTA DE FALAR NELE.
DÓI MUITO. COMO SE A CADA MOMENTO REVIVÊSSEMOS O PESADELO. E SERIA TÃO BOM ESQUECER!
ENTÃO, POR QUÊ? (Escrever.)
NO MEU CASO PESSOAL, A RESPOSTA ESTÁ EM UM PEQUENO INCIDENTE OCORRIDO QUANDO MINHA FILHA AINDA ERA UMA CRIANÇA DE 12 ANOS.
[...]
LEMBRO-ME COMO SE FOSSE HOJE.
ERA SÁBADO, DEPOIS DO ALMOÇO. EU ESTAVA FAZENDO A SESTA, ELA SE DEITOU AO MEU LADO E COMEÇOU A ME ACARICIAR OS CABELOS.
-PAPAI – PERGUNTOU DE REPENTE – POR QUE NÃO SOU COMO AS OUTRAS CRIANÇAS QUE TÊM AVÔ, AVÓ, TIOS, PRIMOS...
A PERGUNTA ME APANHOU DESARMADO. EU A OLHEI COM PREOCUPAÇÃO. ERA JOVEM DEMAIS PARA ENTENDER CERTAS COISAS. TEMIA CAUSAR-LHE DANOS SE CONTASSE A VERDADE. E MENTIR A RESPEITO DAQUELES HORRORES, NÃO DEVIA.
COMO DIZER-LHE, ENTÃO, QUE ELA ERA E AO MESMO TEMPO NÃO ERA COMO TODAS AS CRIANÇAS; QUE TAMBÉM TIVERA AVÓS, TIOS, PRIMOS E DEMAIS PARENTES, MAS OS PERDERA EM CIRCUNSTÂNCIAS TÃO TRÁGICAS?
[...]
PARA SATISFAZÊ-LA, PENSEI EM CONTAR-LHE ALGUM EPISÓDIO DAQUELES TEMPOS, QUE FOSSE INTERESSANTE E APLACASSE A SUA CURIOSIDADE.
MAS O MEU ESFORÇO FOI EM VÃO.
SEM QUE ME APERCEBESSE, LENTAMENTE O PASSADO FOI SE ASSENHORANDO DE MIM E COMECEI A REVER, COMO IMAGENS NUM FILME QUE NÃO CESSA DE RODAR, MEUS PAIS, MINHA PRIMEIRA ESPOSA, MEUS FILHOS, IRMÃOS, IRMÃS, TODOS SENDO LEVADOS PARA OS CREMATÓRIOS DE BELZEC.
[...]
QUANDO DEI CONTA DE MIM, CHORÁVAMOS OS DOIS, EU E A MENINA.''

(Talvez seja o trecho mais comprido que já postei ao fim de uma resenha aqui, mas vale a pena, não?)

04/04/2017

Eu disse adeus ao adeus (pelo menos por enquanto).

Você já teve aquela vontade de largar tudo e ir a um outro lugar qualquer recomeçar? Recomeçar TUDO, do zero. Largar amigos velhos pra fazer novos, família, relacionamentos, conhecidos, ambientes familiares, boatos, costumes, seu lar. Ter a oportunidade de reconstruir sua própria imagem pra quem não te conhece e ficará livre das impressões antigas já difundidas; não mentindo sobre si mesmo, claro, mas recomeçando a si mesmo, simplesmente. Pra ti e para os outros. Sabe, ir a um lugar onde as conversas com/sobre você não serão as mesmas, onde os encontros pra comer xis no sábado serão outros, com ouras pessoas, outros assuntos, outras abordagens. Onde o que sabem sobre você e cochicham nos cantos também não será a mesma coisa - se é que será algo (oremos para que não); onde as perguntas que farão sobre a sua vida também mudarão (após longo tempo sem existir, porque ninguém saberá nada sobre você no início) e não te remeterão àquele assunto pesaroso que te entristece e sobre o qual você daria um braço muito para que ninguém mencionasse, ninguém soubesse. Onde tudo que sabem sobre você e que tu não faz questão que saibam seja ignorado por aqueles que te cercariam pela primeira vez. Onde recomeços fossem a possibilidade vigente...
Sabe isso tudo? Faz um tempo que tenho essa vontade, de largar tudo, partir e recomeçar. De que me seja permitido recomeçar, sem nenhum julgamento alheio. Se eu tentasse ser uma nova (porém legítima) Carolina agora, aqui onde estou, não daria certo. Porque muitas opiniões sobre mim já estão muito bem sedimentadas e não são passíveis de alterações. Isso às vezes frustra, cansa, entristece.
Acho que foi com uns 12 anos que esse sentimento vago, essa vontade distante e sem nome se aproximou de mim pela primeira vez e sussurrou no meu ouvido. ''Eu quero ir embora, partir pra algum outro lugar, não sei aonde, mas só ir, deixar isso aqui pra trás'' Esse sussurro me acompanhou, escondidinho no fundo da mente, por um bom tempo. E esse tempo não cessou, continua e perdura até aqui. Cansei de mim onde estou há muito e queria poder fugir deixar pra trás isso tudo.
Idealizava tanto viver num apartamento, longe daqui, me virando sozinha, com um gato chamado Duster e toda a liberdade que o mínimo dinheiro poderia oferecer. Mas isso tudo parecia muito distante e improvável...
Até que essa oportunidade estourou na minha cara.
Sempre quis ser médica, desde uns quatro anos lembro de me imaginar usando jaleco branco e cuidando de gente num corredor comprido de hospital (percebam que a noção de que o povo sofre, ela vem desde a infância). Mas passar em medicina é AQUILO, né. Dirfícel. Sem querer entrar em mérito educacional aqui ou dar desculpas pra minha falta de conhecimento (do conhecimento exigido em vestibular e enem, pelo menos) e habilidades, só vou dizer que não passei em medicina e ponto (ainda não, amém). Mas acabei conseguindo vaga em enfermagem, através do sisu, esse ano.
Em outra cidade, outro ambiente, outro clima, com outras pessoas. Outra vida. Uma vida longe dessa aqui. Aquilo no que eu tanto pensava.
A possibilidade de ir pra longe e concretizar essa vontadezinha já meio vaga se tornou tão confortável e aconchegante para mim. Uma coisa boa na qual mergulhar, tanto física quanto mentalmente, e nessa segunda condição eu me tocava frequentemente, com gosto.
Não era (não é) o curso que eu queria, mas era na área; eu disse pra mim mesma. E você pode tentar medicina depois de concluir a graduação em enfermagem, porque aí vai ter garantido no currículo pelo menos um curso superior, e tu não tem nada além do ensino médio e uns cursinhos básicos de inglês e informática. Já é alguma coisa. E tu vai poder ir a outro lugar! Eu repeti e repeti isso na minha cabeça até começar a achar que eu acreditava que seria suficiente.
Fui fazer a matrícula. Um dia inteiro de viagem, ida e vinda, com meu pai. Saímos cedinho e voltamos à noite.
Enquanto eu observava pela janela do carro os campos amarelos de Pelotas (meu pai disse que era soja, mas por dentro continuo fingindo que eram margaridas), fui pensando de maneira um pouco mais concreta naquele adeus que eu poderia dar, que teoricamente já estava dando. Eu sentiria falta de algumas coisas? Claro! Das noites de corujão passadas rindo de piadas toscas com meus irmãos, dos fins de semana com amigos jogando flaflu e vivendo a vida adoidados retardados, da irmandade que eu tenho aqui, da camaradagem e da comunhão com certas pessoas. Dos meus cachorros também, claro. E de uma bebezinha que eu amo como se fosse minha. Mas eu percebi que eram poucas coisas, pouquíssimas mesmo, pra 19 anos de existência num só lugar. Isso foi bem triste, mas ainda seria relativamente complicado dar adeus a esse pouco. Talvez se esse pouco fosse muito a decisão conclusiva a que cheguei mais tarde (já chego nela) tivesse sido tomada mais cedo, antes de precisar ir a Pelotas. Mas não foi, e assim eu conheci os campos da cidade que eu, aparentemente, em breve iria habitar.
Lá, na ida, na tarde passada em função da matrícula e na volta, eu tentei abafar alguns pensamentos e sentimentos que começaram a me cercar, algumas coisas que eu queria evitar enfrentar, que eu não queria que chegassem a mim, porque caramba, dane-se, deixa assim!
Eu não queria enfermagem, não queria mesmo isso pra mim, e ao passo que essa consciência começou a ficar mais contundente, eu me toquei numa ideia louca, e até bem burra. Meio insana.
Planejei ir a Pelotas por, no mínimo, seis meses de curso, sabendo que voltaria depois desse tempo, com o curso inconcluído e um currículo vazio. Eu deliberadamente estava arquitetando embarcar numa coisa que eu sabia, tinha certeza, que ''não daria certo''. Sabia que não queria enfermagem e que não gostaria do curso nem nutriria nenhuma motivação para concluí-lo, e ainda assim pensava em ir a Pelotas morar lá por um tempinho. Por quê?, você me pergunta... Porque minha vida estava tão vazia e despropositada que a ideia de fugir dela (alterar ela esse pouquinho), mesmo que em direção a algo falho, me pareceu muito melhor do que permanecer em sua mesmice. Eu comecei a querer ir não pelo curso, mas pra poder ter alguma experiência nova, algo que fosse além do sofá da minha sala, entende? É uma ideia ridícula, eu sei. Querer mudar de casa, cidade, ambiente, companhias, por algo que você sabe que dará errado e que te fará, cedo ou tarde, voltar para casa. É burrice, eu sabia disso. Mas me pareceu tão empolgante (empolgante é uma hipérbole, mas chega perto de corresponder àquela minha realidade momentânea) e válido, se comparado à inércia da minha vida, que eu realmente comecei a alimentar esse pensamento e dane-se o resto. Dane-se o tempo despendido pra nada, dane-se um semestre (ou mais) perdido, dane-se a preocupação familiar com a filha a km intermináveis de distância.
Mas na volta pra casa, depois de fazer a matrícula, é que comecei a ficar com o coração realmente pesado, dolorido, sufocado. Comecei a sair daquela condição de pensamento disforme e embaçado em que estava pra cair de volta na realidade. Começou a machucar aquela ida em direção a algo que não fosse o fim ou caminho que eu tanto desejava. Começou a doer a perda de tempo só por uma ''experiência'' que muito provavelmente não daria em nada além do cessar do tédio completo. Começou a doer.
Tentei abafar essa dor de todos os jeitos ao longo da semana que se seguiu. Com pomada, band aid, xarope, remédio. Tentei me fazer acreditar de novo que valeria a pena aquele nada desatinado que eu viveria em Pelotas, tentei puxar pra perto de mim de novo essa vontade de partir, mesmo que temporariamente. Mas eu não estava conseguindo, e com o tempo o que começou a ocupar meus pensamentos foi como contar à família (especialmente meu pai, que perdeu um dia INTEIRO de trabalho pra fazer a matrícula e definitivamente não é o tipo de pessoa que gosta de ''perder tempo'' pra nada) que, pois é, gente, sabe a vaga que consegui? Sabe a viagem que fiz? Sabe o tempo investido nessa questão? Sabe teus posts de comemoração no facebook, mãe? Eles foram pra nada, não vou mais.
É engraçado (de um jeito deprimente), mas o que me fez concluir que eu não iria mais não foram tanto motivos nobres do tipo ''não quero deixar a família e amigos e ir pra um curso que não desejo''... Foram motivos mais ''técnicos'', como a perda de benefícios e auxílios financeiros da faculdade se eu tentasse outra futuramente, porque a maioria delas só disponibiliza esse tipo de suporte para os alunos que estão em sua primeira graduação. Eu sabia que nem concluiria o curso, então era melhor não arriscar, porque vai que... Imagina conseguir medicina em outra cidade ou outro estado depois disso e não poder ir porque não tem como minha família me bancar fora e não posso mais dispor de nenhum auxílio financeiro porque essa chance já foi, no semestre perdido na enfermagem. Foi isso que falei pros meus pais. Esses foram os motivos mais significativos para mim, naquele momento. Naquele momento.
Depois, no correr de meus dias, observando minha interação com as pessoas que gosto aqui e pelas quais nutro respeito e carinho, observando a mim mesma e a meus sonhos, eu fui assimilando que aquele adeus seria muito errado. Eu queria e ainda quero dar adeus pra muita coisa, mas tem que ser um adeus certo, e aquele não era.
Não quero dar um adeus sem propósito que me levará aonde não quero estar, de fato. Não quero dizer tchau pra pessoas das quais não preciso, não quero e muito menos devo me despedir. Não seria certo e só causaria uma dor que eu teria que reparar num futuro próximo. Seria um adeus que precederia um ''olá de novo'' arrependido e sem vida.
Eu sei que vou dar adeus um dia. Mais de uma vez. Um adeus expansivo e que vai engolir muita coisa ao meu redor, só pra poder carregar boa parte delas dentro de mim por um longo tempo. Um adeus cabisbaixo mas feliz, triste mas com expectativas, sem querer mas com vontade. Um adeus certo, que deve ser dado pelos motivos corretos.
Esse não era meu adeus de agora, não era o adeus que eu realmente quero dar na vida.
Seria um adeus que não deve ser dado, seria de fuga e não de uma partida com significado (juro que essa rima não foi proposital).
Não é o adeus certo, então eu dei, por hora, adeus ao adeus. Esse é melhor, o único e o máximo que devo dizer no momento.
Adeus.

22/03/2017

O Garoto Quase Atropelado

De Vinícius Grossos
Outro livro emprestado, e esse é brasileiro. Li com mais vontade porque estava precisando de uma coisinha mais mamão com açúcar pra me distrair e era mais ou menos isso que eu esperava. Ele é todo leve e descontraído, tem essa capa com uma ilustração simples e bonitinha, letras grandes que vão rápido e cheirinho de novo - como de fato é, a mãe do meu amigo tinha recém comprado pra dar pra ele (preciso de gente que compre livros pra mim assim, do mais absoluto nada; interessados, enviem currículo). Eu queria uma leitura fluída e leve e foi isso que encontrei entre essas páginas.
Diferentemente de grande parte da literatura brasileira, essa não é nem um pouco rebuscada e densa (dá pra prever que nada muito difícil vai sair de uma capa dessas, né); como muitos autores contemporâneos de infantojuvenil têm se feito notar, essa narrativa quebra a expectativa de uma trama intrincada de linguagem pesada - que a gente costuma esperar dos exemplares brasileiros antigos que pega pra ler - , coisa que, talvez por pouco procurar autores nacionais, eu não encontro com frequência. Na verdade, não sei como está o mercado com obras de infantojuvenil nacional, porque nosso país é tão rico na literatura de vanguarda que passa a ser raro darmos (eu, pelo menos, e não me orgulho disso) atenção ao que tem surgido de novo por aí. Não é segredo por aqui que não leio muita coisa brasileira (juro que tô tentando mudar isso, querido Brasil), e poder encontrar livrinhos assim, que quebram de leve um padrão ao qual me condicionei a pegar coisas nossas pra ler é legal. Mesmo que eu acabe não gostando tanto, é bom saber que estamos indo além da linguagem culta e rebuscada que marcou tanto tempos passados, e que ainda aparece por aí mas não precisa ser a única. Ainda assim, se eu fosse listar títulos nacionais de estilo semelhante que li, não iria muito longe, não. Acho que não chegaria nem a dez, então fico bem grata com indicações de livros brasileiros que fogem do tema e estilo que, por ignorância e falta de familiaridade, sempre espero. Sabe esses livrinhos leves que você gosta de ler entre uma leitura pesada e outra, só pra espairecer e não sobrecarregar muito a mente? São esses >nacionais< que pouco conheço.
Mas enfim, como eu ia dizendo, O Garoto Quase Atropelado certamente é mais em conta ao público juvenil, tem uma narrativa bem fácil de acompanhar e que é até mesmo infantil, em alguns momentos. Ele é cheio de frases clichês que você lê pensando ‘’isso claramente foi escrito pra alguém tatuar no antebraço ou colocar no seu perfil de citações do tumblr (raise your hands if you have one, cause I do)’’, e alguns momentos e ocasiões que seguem os mesmos termos. De maneira geral, eu achei superficial, embora ele tente com afinco mergulhar no íntimo de cada personagem, explorando suas emoções, passados, sonhos e expectativas. O autor é bem jovem, na casa dos vinte, e publicou poucos romances até então; embora ele desenvolva a narrativa de uma maneira que faz com que ela não canse, fatigue e consiga, no geral, nos instigar a conhecer o resto da história, dá pra perceber, de alguma maneira, que estamos lendo algo escrito por um romancista de início de carreira, sabem? Achei a estruturação dos personagens, tal como suas reações, atitudes e diálogos, meio irreais, quase absurdos. Seguidamente lia trechos que me faziam pensar ‘’isso JAMAIS acontece com gente real’’. Sei que, réllou, isso é ficção e existe uma coisa chamada licença poética que te permite pintar e bordar com qualquer manifestação artística que você queira desenvolver, mas essa irrealidade dificultou minha imersão na leitura. O livro é melancólico e AMO de paixão esse clima na literatura porque ele dá muita margem a que eu sinta todas as emoções dos personagens, me identifique com eles, sofra (eu gosto de sofrê com livros, nunca vi...) com eles e sinta que tudo aquilo também está acontecendo comigo; mas embora eu não tenha ficado impassível a tudo aquilo, faltou esse envolvimento maior que eu poderia ter sentido. Apesar disso, cada personagem tem uma história bem característica e memorável e você acaba simpatizando com eles no final, pelo menos um pouquinho.
A história é contada em forma de diário, o diário do Garoto Quase Atropelado, cujo nome real não conhecemos em nenhum momento do livro. Ele começa a escrever num diário por recomendação de uma psicóloga e incentivo de sua mãe, que acharam bom ele destrinchar os próprios pensamentos e externar o que sente de alguma forma, depois de uma evento extremamente traumático que lhe ocorreu. Mas a narrativa fica bem frenética e com capítulos compridos o suficiente pra você esquecer que tá lendo tudo de um diário e passar a achar que é só um desenrolar normal de enredo em primeira pessoa.
Ao passo que vai escrevendo sobre seus primeiros dias tediosos com o diário, O Garoto cruza caminho com três adolescentes com os quais passa a se envolver, desenvolvendo logo uma amizade de laços fortes unidos pela sofrência experiência mútua com momentos e situações traumáticas que marcaram a vida desses quatro jovens, de maneiras diferentes. A Cabelo de Raposa, O James Dean Não-Tão-Bonito, a Cabelo Roxo e O Garoto Quase Atropelado (a repetição frequente desses apelidos chega a irritar, em certo ponto do livro) se unem, não ‘’apesar das diferenças’’, mas por causa delas, e embarcam numa amizade (vê se essa frase não parece sinopse de filme clichê de aventura entre adolescentes) que os leva a vivenciar diversas experiências juntos; são momentos de superação, irmandade, tolerância, coragem e fé na amizade que os une. Além de muita paixonite desesperada, como não poderia faltar num livro que fala sobre adolescentes imaturos e bobinhos. E tudo (MUITA coisa MESMO) acontece no intervalo de apenas 1 mês – um mês que finda de maneira bem dramática, devo dizer (e só não digo mais pra não spoilerar a coisa toda).
Uma das maiores lições que o livro procura passar é a necessidade de não só existir, mas viver de fato, com o tempo que nos é dado. O personagem central, depois do evento traumático que ocorreu em sua vida, se tocou numa sucessão de dias vazios e inaproveitados, levados no embalo da melancolia, tristeza e falta de propósito que o cercou depois da tragédia. Após quase ser atropelado (por isso o apelido ‘’Garoto Quase Atropelado’’), no momento em que percebe que se safou da própria deesgraça, ele sente aquele alívio de quem teve uma segunda chance pra viver, enquanto o coração bate frenético pelo quase fim da linha de vida que teria arrebentado se ele não tivesse freado a bicicleta antes do carro ter a chance de passar por cima dele. Ele não foi atropelado, só quase, e por isso sentiu que tinha mais uma oportunidade de mudar o rumo que sua vida tinha levado. Se ele se tocou de cara nesse propósito, se a sensação logo passou e foi esquecida pra nunca mais voltar ou se ele começou a abrir espaço aos poucos a novas experiências e oportunidades e como ele fez quaisquer dessas opções acima é uma coisa que vou deixar quem quiser ler descobrir.
Se eu recomendo o livro? Olha, não foi nada excepcional para mim, como eu fiz questão de esclarecer ao apontar os defeitos que observei (eu detesto adotar essa posição crítica de quem acha que entende todos os paranauê do assunto que tá abordando, mas já era, desculpa) e que me incomodaram ou afetaram o andar da carruagem narrativa pra mim, de alguma maneira; mas eu também não me arrependi de ter gasto o tempo que li nessa tarefa. O livro tem sua superficialidade, suas falhas e seus aspectos a melhorar, mas também carrega boa parte das características que eu tava procurando no momento em que fiz a leitura: leveza (o livro é cheio dos desastre, então é engraçado citar ‘’leveza’’ aqui, mas como eu disse, a coisa é abordada de uma maneira meio infantil, então tá tranquilo tá favorável SOCORRO TÔ MENCIONANDO ESSA MERDA NUMA RESENHA), simplicidade, distração e descontração. Ademais, eu nunca ouso antecipar a recepção que cada leitor terá a cada livro diferente, porque os leitores, como os livros, variam demais.
Então, se você estava como eu, que havia saído de uma bosta de livro de metafísica e logo entraria num relato histórico denso sobre a Segunda Guerra Mundial (tô lendo agora) e queria procurar alguma coisa mais neutra pra se encaixar entre eles e não explodir seus miolos ou, sei lá, só é alguém atrás de novos nomes e títulos da literatura nacional atual, vai nessa, leia. Garanto que as 270 páginas vão fluir e passar rapidinho – até mesmo se você achar uma completa desgraça, ouso dizer. 

''SABE AQUELE MOMENTO EM QUE VOCÊ REALMENTE É QUASE ATROPELADO POR ALGUMA COISA, E NUM LAPSO DE SEGUNDO VÊ A SUA VIDA PASSANDO RÁPIDO ATRAVÉS DOS SEUS OLHOS, MAS ENTÃO NADA DE GRAVE ACONTECE E VOCÊ ESTÁ APENAS LÁ, PARADO, OS OLHOS ASSUTADOS, O MEDO CANTANDO NOS OUVIDOS, E O CORAÇÃO MARTELANDO DE FORMA DOENTIA?
AÍ, É NESSE INSTANTE QUE VOCÊ PERCEBE QUE ESTÁ TUDO BEM, VOCÊ RESPIRA E É COMO SE TIVESSE MAIS UMA OPORTUNIDADE. E, NO FIM DAS CONTAS, TUDO SE RESUME A APENAS ISSO: VOCÊ REALMENTE SE SENTE VIVO!''

(Ah, o autor vive mencionando esse sentimento ao longo do livro, a ''sensação de ser quase atropelado'', e isso passa a ser uma referência constante entre os amigos; depois que deixa de ser meio irritante você passa a achar bonitinho, juro.)
P.S.: A Laís era louca de pedra, cara. Sério, eu e o Daniel (amigo que emprestou o livro - e que quer ser psicólogo, acho que isso empresta alguma credibilidade a esse julgamento, certo?) concordamos que aquela guria precisava de um tratamento seríssimo. PlmdD, ALGUÉM AJUDA AQUELA DISGRAÇA.